quinta-feira, 2 de junho de 2016

Entrevista: Sávia Barreto fala sobre assédio, empoderamento, política e webjornalismo

Posted at  01:49:00  |  in  Sávia Barreto


Bela, recatada e do lar (ERROR 404). Sávia Lorena Barreto ou, simplesmente, Sávia Barreto é mulher, jornalista (UESPI), feminista, já sofreu assédio, sabe falar sobre política, adora cachorros e está na editoria chefe do Portal O Olho. Mestre em Comunicação (UFPI), tendo cursado Ciências Sociais (UFPI). Hoje é estudante de Psicanálise. Iniciou a carreira há oito anos no jornalismo político, com experiência em jornal, rádio e TV.

Chegou a o O Olho não pela beleza e simpatia, mas por ter se preparado profissionalmente para o cargo que lhe foi dado a convite de Allisson Paixão. Na ocasião, iria compor a editoria de política, no entanto, por galgar novos desafios pediu para assumir a Editoria Chefe (e não a Chefia de Redação como se chamaria) do Portal. 

Sávia compartilha, na entrevista a seguir, um pouco da sua história profissional e pessoal e como isso levou a ser quem ela é atualmente. Amante dos animais, ela também abre espaço para contar uma curiosidade: carrega no carro um saco de ração para alimentar os animais que, por ventura, encontra pela rua. 

P8: Jovem, jornalista, oito anos de carreira, mulher e uma constante estudiosa. Esses fatores por si só já falam muito sobre você. Mas, afinal, o que significa (profissionalmente) o nome Sávia Barreto?
Sávia Barreto: Meu Deus! Que pergunta difícil!!! Mas, olha, eu tenho uma teoria que eu até compartilho com o Allisson que é que 95% das pessoas são imitadoras e 5% são inventivas. Eu gosto de me imaginar como inventiva e eu sei que isso tem um ônus e um bônus. Você não sabe como as pessoas vão ver aquilo que você propõe.
Me vejo como uma pessoa desbravadora de caminhos, ousada, firme (não necessariamente forte) e também como uma mulher sensível, sujeita a ficar magoada. Profissionalmente, eu discuto muito com o pessoal aqui do O Olho em a gente fazer um jornalismo diferente. Pode parecer clichê, mas gostamos dessa pegada inovadora. No passado, por exemplo, inovamos ao trazer uma matéria feita em primeira pessoa em que o Orlando (Berti) passou o dia perto de um buraco numa BR e ele narrava como se ele próprio fosse o buraco. A matéria, por sinal, repercutiu bastante e arrancou elogios e críticas dos leitores. Então, propor o diferente causa estranhesa. Mas, é isso! 
Sávia Barreto ao lado dos integrantes do P8: Wilson (a esquerda) e Andre (a direita)
P8: Sobre o webjornalismo: Acha que a tendência é que os jornais impressos deixem de existir a longo prazo? 
Sou admiradora do jornal impresso e fiz minha carreira por lá. Eu acho que a tendência do jornal impresso não é competir com o Facebook ou com a Web, mas é, na verdade, fazer o que ele faz de melhor que é mostrar um material exclusivo, aprofundar. Trazer conteúdos que o leitor não vai encontrar em outro lugar. Entretanto, eu acho que os jornais impressos do Piauí necessitam se reinventar visualmente.

P8: Você é a favor ou contra que o jornalista emita sua opinião em uma notícia? Acha que falta ética no jornalismo local ou peca-se pelo excesso de sensacionalismo?
Eu penso que o jornalista sempre está dando sua opinião. Sabe por que? Porque mesmo quando é uma matéria pretensamente objetiva, ainda que inconscientemente, quando o jornalista escolhe uma foto em que a pessoa está sorrindo, ao invés de uma foto em que a mesma esteja séria, então a partir desse momento ele já está imprimindo uma mensagem. Em contrapartida, eu acho que o que falta mais no jornalismo local, principalmente no escrito, é mais opinião. E isso deve ser feito delimitando-a, apartando da informação. 
Sobre achar ou não que falta ética, eu acho que existem propostas e propostas. É possível ver pelo trabalho dos meus colegas de profissão que tem muita gente ousando e também vejo pecados nesse caminho. Isso é fato. Na minha percepção ninguém está copiando ninguém, mas que existe sim uma influência. De um programa de televisão, por exemplo, ser influenciado por outro. Existe sensacionalismo? Existe! E para tal temos que debater, mas ridicularizar um profissional ou meio de comunicação não é algo que valha a pena. Isso eu abomino no jornalismo.

P8: O que você considera mais difícil na carreira jornalística?
Tem desafios em vários aspectos. O pessoal, pela questão financeira já que se reconhece como uma profissão que não é bem paga. Existe uma rotina extenuante. Eu, por exemplo, às vezes, engajo uma rotina de 10 a 12 horas por dia. Além disso, é cobrado do jornalista que ele sempre esteja bem informado. Para mim, profissionalmente é ter o desafio de fazer um jornalismo diferente e saber recuar quando for necessário. 

P8: Trazendo ainda sobre esse ponto de fazer um jornalismo diferente. Como você acha que deve ser debatido o suicídio aqui no Piauí?
Eu acho que ainda existe um pouco de ignorância de quem publica foto da pessoa que se suicidou, mas creio que por falta de conhecimento mesmo, além de ter um pouco do sensacionalismo que visa querer ganhar cliques. Nessa busca dos “caça-cliques” você pode passar dos limites. Há algum tempo escrevi um artigo em que trazia mais ou menos no título que não se deveria divulgar o ato e foi até um pouco mal interpretado. Mas, eu falava no texto que não deveríamos debater casos específicos de suicídio ao trazer modo como se deu, se se suicidou porque era gay, ou por quê a mãe não aceitava relacionamento ou por quê sofreu estupro ou qualquer outra razão. Então, deve-se debater não essas especificidades, mas o que o levou a cometer o ato. A depressão, a temática, e como as pessoas devem buscar ajuda. 
A medida que você divulga de maneira irresponsável o suicídio, você está expondo aquela pessoa que não está mais aqui para falar, está expondo a família e está causando dor. A função do jornalismo não é para causar dor e sofrimento. Sem contar que sem esse cuidado na divulgação, e para isso existem pesquisas que comprovam, outras pessoas podem se encorajar. Até mesmo um local aonde se divulga que foi usado para tal fim, passa a atrair potenciais suicidas, como uma ponte, por exemplo. 

P8: Sávia, as redes sociais têm papel fundamental no webjornalismo hoje em dia. Você é uma assídua usuária delas e nós gostaríamos de saber até que ponto elas são aliadas ou vilãs da notícia?
Eu passei um tempo fora das redes socais e percebi que, para eu exercer o meu trabalho de jornalista, precisaria da visibilidade que as mesmas proporcionam. Hoje é um canal mais fácil, em que você estabelece um contato mais ágil. Eu, como uma pessoa introvertida, considero como um desafio estar nas redes sociais. Antes de integrar o O Olho, usava minhas postagens para me divertir. Então, após meu ingresso aqui (O Olho) eu passei a me preocupar mais com relação ao conteúdo compartilhado. Assim, vejo como uma plataforma de visibilidade para aliar ao jornalismo. Como vilã, é que na internet os usuários acabam sendo mais intolerantes com os erros dos outros ou até mesmo para fazer uma ridicularização gratuita.

P8: Você é formada pela UESPI há pouco mais de 6 anos e pôde ver que os problemas daquela instituição só pioram. Por que o Governo relega tanto a UESPI já que é lá que está sendo formado o capital intelectual do Estado e, ainda, é lá que estão os eleitores mais politizados?
A UESPI é uma instituição que tem uma capilaridade muito grande, que chega ao interior e proporciona que os mais pobres possam ingressar num curso superior e, a partir daí possibilitar uma melhoria de renda. Então, isso vem de muitos outros governos de relegar mesmo a segundo plano, dar recursos de menos para a educação. E sim, creio que existe essa preocupação de nem sempre os políticos quererem que a população em se tornando mais instruída, possam se revoltar contra suas próprias imposições políticas. Eu convivi nas duas (UFPI e UESPI) e era visível a falta de estrutura básica da instituição estadual. É necessário ter um mínimo, porque, afinal, não se dá aula só falando, principalmente em um curso mais técnico. O Uespiano é um forte e essa mobilização está dando certo. A sociedade está comentando sobre o assunto.

P8: Em agosto de 2015, você participou de uma experiência junto com a equipe do Portal O Olho para mostrar o assédio sofrido pelas mulheres em Teresina. Alguma outra vez você já passou por situação similar?


Sim! Foi isso que me inspirou a fazer o vídeo. Foi baseado em eu vivenciar esse assédio e ter amigas próximas que relatavam isso também. Escolher uma roupa para ir até mesmo na padaria era difícil. Ir de short, por exemplo, eu já previa que haveriam homens no ambiente e que olhariam e iriam brincar, então, isso gera desconforto. Você não vê, por exemplo, um homem elogiando um outro homem ‘fortão’ que passa na rua. E isso acontece predominantemente com mulher. 
O que aconteceu comigo foi que, ainda na época em que residia no Bairro Saci, não possuía carro, e estava caminhando do ponto de ônibus até a minha casa e um homem passou, perguntou as horas e no momento em que fui falar ele passou a mão por debaixo da minha calcinha e após isso saiu correndo. Aquela situação me deixou em choque! Fui para minha casa, chorei, tomei banhou e pensei “Meu Deus eu estou na rua e uma pessoa vai e mete a mão por debaixo da minha calcinha?” Na matéria eu discorro sobre esse episódio. Depois desse relato eu vi que várias mulheres do Brasil inteiro vieram me contar sobre os seus casos. Um desses, era o de uma grávida que tinha sofrido assédio, em que um homem teria passado a mão na sua bunda.
Ou seja, são situações que independem da roupa, do horário, do local. 

NOTÍCIA PUBLICADA NO 180 -  (NOVEMBRO de 2015): Editora do 'O Olho' registrou queixa contra tio do jornalista Manoel José

P8: Você guarda mágoas do tio de Manoel José e do próprio jornalista?
Eu acho muito delicado falar de profissionais que já passaram pelo Portal O Olho. Passou muita gente boa, que deram contribuições importantes. Algumas deram certo, outras não. Especificamente, sobre esse caso eu dei uma visibilidade mais por uma questão de direito já que envolvia desrespeito, invasão de privacidade e uma série de outros aspectos. É um desafio você sofrer uma violência e dar visibilidade a ela, mas é em nome de uma causa.

P8: Sobre o empoderamento feminino: Na sua opinião ainda falta muito para que as mulheres ocupem lugares de destaque na sociedade e na política?
Um fator inibidor de as mulheres ocuparem seu justo espaço é que quando ela chega em um ambiente novo ela é logo rotulada. Se uma mulher fala e se impõe como um homem faria, será vista como “uma pessoa difícil de lidar” ou “agressiva” porque, aparentemente, ela não aceita baixar a cabeça. 
Falta uma mudança estrutural na sociedade, porque a mulher ainda é vista em posição secundária em relação ao homem. Existem avanços? Sim, existem! Mas, se as mulheres baixarem a guarda, o provável que aconteça são as perdas desses direitos conquistados. Mais mulheres em posição de destaque, de visibilidade, acaba por estimular outras a desbravarem esse caminho de que elas também podem. Outro ponto é que o machismo pode não vir só dos homens, mas ainda de outras mulheres. Então é preciso romper isso.

P8: Que tipos de políticas, na sua opinião, ainda poderiam ser feitas tanto com relação ao assédio sexual, quanto ao garantismo da igualdade dos gêneros?

Alguns países, inclusive aqui na América Latina, têm feito políticas no sentido de multar e punir esses homens que assediam e agridem verbalmente as mulheres no espaço público. O primeiro passo é a discussão sobre o assunto. Fiquei feliz por ter feito aquela matéria sobre assédio sexual no ano passado e ela ter repercutido não por vaidade pessoal, mas pelo fato de despertar nas pessoas a discussão do assunto. Entretanto, a discussão não pode ser vazia. Tá todo mundo compartilhando, todo mundo comentando, mas, e aí? Então, fiquei um pouco frustrada por ao mesmo tempo que teve a visibilidade, não teve um resultado prático ainda que eu sabia que não existe essa causa e efeito imediatos. Acender a discussão já é um passo, ainda que pequeno. Fazer com que as mulheres tomem atitude a ponto de buscarem dar um basta nessa situação e delas terem essa noção de que não podem, nem devem ser assediadas em espaços públicos. 
Deve-se buscar ter um treinamento dos agentes públicos, dos próprios órgãos de defesa e dos profissionais em geral, para que situações de assédio não sejam minimizadas, tratadas como meros elogios, quando na verdade perturbam a cabeça da mulher. Outro ponto é que não pode ser tratada como uma situação que não mereça atenção de punições mais severas em face de outros atos ilícitos. 

P8: Os jornalistas tem “invadido” (literalmente) a política. Como você vê esse movimento? 

Eu acho que é uma profissão que precisa de visibilidade para acontecer e, muitas vezes, eu acho que se confunde o profissional que está ali no vídeo para relatar um problema e ele faz aquele discurso, de certa forma, um pouco vazio: “Olha tem que resolver!”, bate a mão na mesa e diz que tem que resolver. Daí a população acaba se identificando com o apresentador porque é ela que tá passando por aquele problema narrado. 
Considero muito forte um apresentador estar todos os dias ali na televisão e é entendível o fato dele ter apelo popular justamente por isso. E sobre isso, eu vejo que teve gente boa que fez muitos projetos e houveram pessoas que se mostraram um fracasso total. Também vejo tentativas de fazer uso de uma popularidade para conseguir um cargo público, sendo que para você estar na TV requer qualidades X, Y e Z. Para exercer um cargo público requer outras qualidades que nem sempre são as mesmas. Para a TV você tem que ser simpático, extrovertido. Já para a política você precisa de outros atributos. 
A população pode até ser um pouco ludibriada quanto a isso, mas não vejo o público como um burro, já que quando ele vota e não dá certo, há um recuo. 

P8: Você se candidataria a algum cargo?

Não! Rsrs. Não almejo de forma alguma. Vejo a minha missão no jornalismo, na causa feminista, no desbravamento de como fazer um jornalismo diferente.
O meu pai é vereador e vejo, com a proximidade de ter ele na política, de que “pôxa, você entra com muitos sonhos e projetos”, mas na prática é diferente. Não se consegue fazer tanta coisa assim.
E, para mim, tenho a percepção de que posso modificar mais as estruturas como jornalista ao trazer reflexões, fazer pensar e incomodar. 

P8: Mudando um pouco de assunto, a Sávia do SnapChat é uma pessoa engraçada, de bem com a vida, viaja, se diverte trabalhando e até tira onda do chefe. A rede social consegue captar a Sávia Barreto em sua essência ou tem mais alguma coisa que a gente não sabe? rs
Na verdade, acho que a Sávia Barreto é uma persona que eu criei e que as vezes ela sai um pouco do limite. E tem a Lorena, que é meu nome do meio, que é em quem eu me acho, quem eu sou realmente. Aí no Snapchat consegue sair mais dessa Lorena que é uma pessoa que é irônica, que brinca. Meu humor é meio humor negro e também autodepreciativo porque tiro brincadeiras comigo mesma, com as pessoas que estão próximas a mim, então, consegue captar facetas disso. Mas, cada rede social capta de uma forma diferente. O Instagram uso mais para vaidade. O twitter para pequenas reflexões. O Facebook para ter contatos profissionais e como plataforma de divulgação do meu trabalho para um público mais heterogêneo. Entretanto, eu te diria que não dá para ter um raio-X e te falar “Olha a Sávia Barreto é isso”.



JOGO RÁPIDO
Jornalismo? Paixão.
Webjornalismo? Destino. 
Allisson Paixão como chefe é…? Voto de confiança.
Mulher? Força.
Assédio sexual? Crime.
A política? Gostosa (Porque eu amo política).
Impeachment? É golpe.
Um amor? Juarez e cachorros.
Piauí? Não saio daqui.
Sávia Barreto por Sávia Barreto? A mulher que quer estar no comando do seu próprio destino.

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